Petrobras conduz maior programa de investimento do mundo e pode ficar entre as cinco maiores do setor

15.07.2011

 

 

Peter Howard Wertheim

Em entrevista exclusiva para a Oil&Gas Journal Latinoamericana o Presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli de Azevedo, dá uma visão bastante detalhada dos desafios tecnológicos e logísticos da era pré-sal e dos esforços para desenvolver uma cadeia produtiva em parceria com empresas nacionais e internacionais.

“A Petrobras está conduzindo o maior programa de investimentos do mundo,” afirma Gabrielli. O projeto que vai levar a Petrobras a se posicionar entre as cinco maiores produtoras de petróleo, no entanto precisa antes equacionar outro problema: a exigência de 60% de conteúdo local na construção de equipamentos para a exploração e produção das reservas.

Com um crescimento de 400% das contratações no País, há equipamentos e segmentos da indústria offshore que necessitam ampliar globalmente sua capacidade de produção para atender as demandas da Petrobras. Como a nossa política tem por objetivo ampliar a participação nacional nesse incremento mundial, medidas de incentivo estão sendo intensificadas, cobrindo áreas estratégicas para as empresas, como tecnologia, finanças e gestão,” explicou o executivo.

“A Petrobras está em contato permanente com a rede de fornecedores de todo o País, realizando reuniões sistemáticas com empresários de pequeno, médio e grande porte, com o objetivo de estimular a indústria nacional a desenvolver sua capacidade de produção. A Petrobras trabalha também na qualificação de profissionais, tanto por meio doPrograma de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás (Prominp), como através de parcerias entre empresas nacionais e estrangeiras,” acrescentou.

OGJLA - A demanda por equipamento é enorme. Quais são os critérios para determinar que projetos podem realmente atender a exigência de conteúdo local? É certo que alguns componentes podem não atender a exigência em função da alta tecnologia envolvida ou da escala de demanda em questão?

Gabrielli– O nosso programa de investimentos de U$224 bilhões até 2014 é composto por 3.200 projetos, incluindo subdivisões que representam famílias de produtos, sistemas e componentes dos sistemas. Para a Petrobras, é importante que os fornecedores conheçam toda a sua demanda. Para isso, criamos, em conjunto com o Prominp, um site no qual a empresa fornecedora se cadastra, informa o que compra e o que vende, e visualiza a demanda da companhia, trimestre a trimestre, daqui até 2014.

Serão mais de US$ 108 bilhões destinados pelo plano de negócios somente às atividades de exploração e produção de petróleo no Brasil. Espera-se um nível de contratação anual no País de cerca de US$ 28,4 bilhões.

Esses investimentos também objetivam a estimulação do desenvolvimento da cadeia produtiva de alta tecnologia, já que a exploração das jazidas do pré-sal exige sofisticadas soluções tecnológicas.

Além disso, a Petrobras está investindo na criação de  redes de laboratórios de pesquisas, que hoje já somam 50 redes temáticas, envolvendo 70 instituições de pesquisa de ciências e tecnologia e universidades brasileiras, em 19 estados do País.

OGJLA–  Dê alguns exemplos de equipamentos em demanda, citando quantidades. Por exemplo, quantas árvores de natal, quantos km de risers flexíveis, de umbilicais, embarcações de apoio?

 

Gabrielli– Nos próximos anos, a carteira de projetos programada pela Petrobras garantirá demanda em larga escala de sondas de perfuração, unidades de produção, arranjos submarinos, bombas, dutos, linhas flexíveis, além de milhares de outros equipamentos. Além disso, vamos precisar de mais de 500 árvores de natal, mais de 42,000 km de risers flexíveis, 30,000 km de umbilicais, 146 embarcações de apoio e 72 enormes navios tanque.

OGJLA – O subsecretário de comércio dos EUA, Francisco J. Sánchez, recentemente veio ao Rio de Janeiro para o World Economic Forum e criticou a política de conteúdo local da Petrobras: “A política de conteúdo nacional, cláusula pétrea para o governo brasileiro quando o assunto é exploração e produção de petróleo no pré-sal, pode não ser o mais adequado para o país quando o assunto é o desenvolvimento de tecnologias de ponta para o setor de óleo...... Em algo muito importante, como a energia, acho que é do interesse brasileiro ter a melhor tecnologia e o melhor conhecimento, não apenas a tecnologia local, mas a melhor tecnologia, não importando de onde venha."

Gabrielli - A Petrobras não comentará a opinião do subsecretáriodos Estados Unidos, reportada pelo jornal brasileiro Valor Ecônomico.  Esclarece, contudo, que éimportante ressaltar que as aquisições no mercado nacional cumprem os padrões internacionais de qualidade, prazo e custo. A confiança da Petrobras no mercado supridor nacional e a capacidade de resposta desse mercado permitiram que a parcela nacional das contratações da companhia registrasse um crescimento constante e acima da meta ao longo dos últimos anos.

Também é interessante observar que as metas de conteúdo local se referem à produção de bens e equipamentos produzidos no Brasil, mas não limitam as parcerias com empresas estrangeiras. Pelo contrário, a Petrobras está convidando empresas internacionais a investirem aqui, a trazerem suas instalações e operações para o Brasil, a desenvolverem tecnologia e equipamentos em parceria com fornecedores locais.

A Petrobras tem tradição de trabalhar com outras empresas, nacionais ou internacionais, e acredita que a cooperação possibilita muito aprendizado e intercâmbio de tecnologia. O Brasil tem hoje a maior demanda de equipamentos para a produção de petróleo offshore do mundo, portanto, é um mercado muito promissor para fornecedores de equipamentos e serviços do setor. Empresas internacionais como GE, Rolls Royce, Schlumberger, Baker Hughes, FMC Technologies, entre outras, estão instalando centros tecnológicos no Brasil.

OGJLA - Durante a recente visita à China, a Petrobras assinou contratos com os grupos chineses Sinopec e Sinochem. Poderia explicar estes contratos assinados e qual a importância da China para o pré-sal no Brasil?

Gabrielli - A Petrobras está conduzindo o maior programa de investimentos do mundo e está interessada em desenvolver alianças estratégicas e de cooperação com outros países. As empresas chinesas manifestaram disposição em buscar oportunidades de negócios em várias áreas, ampliando as relações comerciais já existentes.

Assinamos um acordo de cooperação tecnológica para troca de conhecimento nas áreas de geofísica, geologia e engenharia de reservatórios de petróleo com a China Petrochemical Corporation (Sinopec).  Com a Sinochem Corporation, assinamos um memorando de entendimentos para cooperação estratégica com o objetivo de identificar e viabilizar oportunidades de negócios nas áreas de exploração e produção, comercialização de petróleo e recuperação de campos maduros.

Além desses acordos, a Petrobras tem, desde 2009, um contrato para financiamento com o China Development Bank Corporation (CDB) no valor de US$ 10 bilhões com prazo de dez anos. Os recursos são utilizados para financiar o plano de negócios da empresa.

OGJLA - Como explicar o enorme sucesso da Petrobras no pré-sal, que outras empresas não conseguiram atingir? Por exemplo, a ExxonMobil encontrou três poços secos nas suas perfurações no pré-sal.

 

Gabrielli - A Petrobras é a primeira empresa do mundo a encontrar e produzir petróleo e gás abaixo da camada de sal, em horizontes geológicos e profundidades que chegam a sete mil metros a partir da superfície do mar. Há pouco mais de trinta anos, o limite era produzir petróleo em profundidades próximas a 300 metros. A experiência da Petrobras nesse setor é resultado de pesquisas tecnológicas que a Petrobras conduz desde a década de 80, juntamente com fornecedores, universidades e outros parceiros. Criamos em 1986 o Programa Tecnológico de Águas Profundas (Procap / Procap 2000 e 3000), que nos levaram a atingir sucessivos recordes mundiais de profundidade de água. O Procap Visão Futuro, a nova versão desse programa, enfatiza a busca por soluções que possam alterar significativamente o padrão atual de desenvolvimento de um campo em águas profundas.

 

Além do desenvolvimento tecnológico próprio, a Petrobras trabalha em sintonia com a comunidade científica brasileira e incentiva a evolução da tecnologia nacional. No centro de pesquisas (Cenpes) um grupo de técnicos agrupados no Programa Tecnológico para o Pré-Sal – Prosal se dedica a desvendar essas formações geológicas e buscar soluções para uma operação até agora sem referências na indústria do petróleo.

 

OGJLA – Como está o andamento da construção das 28 novas sondas de perfuração necessárias para continuar explorando no pré-sal?

 

Gabrielli - APetrobras aprovou em fevereiro deste ano o processo de licitação para a construção no Brasil das primeiras sete sondas, de um total de 28 unidades de perfuração marítima, para atendimento ao seu programa de perfuração de longo prazo, prioritariamente para poços no pré-sal. A previsão de entrada em operação das novas sondas é para 2015. As demais 21 sondas também serão produzidas no país.

 

Durante a construção, a previsão é de abertura de 32.000 postos de trabalho, diretos e indiretos, em oito anos. Na fase de operação, serão 10.000 empregos (diretos e indiretos) para um período de 10 anos.

 

O contrato de afretamento será realizado com a Sete Brasil S.A (Sete BR), que assumirá o contrato de construção com o EAS. A Sete BR é uma empresa constituída pelo Fundo de Investimentos em Participações - FIP Sondas, gerido pela Caixa Econômica Federal (CEF), que detém 90% da empresa e terá como quotistas investidores de mercado, incluindo fundos de pensão e bancos de investimentos brasileiros. A Petrobras deterá 10% das ações da nova empresa.

 

OGJLA – A Petrobras pretende reduzir o número de pessoas que trabalham nas plataformas, através da intensificação de automação, devido à distância entre a costa e as reservas encontradas. Por favor, desenvolva este pensamento, explique as vantagens da automação e diga em que estágio a Petrobras está no desenvolvimento desta idéia?

 

Gabrielli - A tecnologia para automação das plataformas, que está em fase de desenvolvimento, será importante para que os profissionais atuem cada vez menos em áreas de risco e para controlar a confiabilidade e segurança nas instalações. O centro de pesquisas da Petrobras (Cenpes) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mantêm, na Ilha da Cidade Universitária, o laboratório de engenharia, aplicação e desenvolvimento em instrumentação, automação, controle, otimização e redes de campo (LEAD). O LEAD vem contribuir na identificação de novas rotas tecnológicas na área de automação e controle.

 

OGJLA – É correto afirmar que, para produzir petróleo em águas profundas a distâncias de até 350 km da costa na Bacia de Santos, a Petrobras vai precisar superar problemas técnicos e logísticos mais difíceis do que os enfrentados pelas empresas do Golfo do México? Um quarto da produção de petróleo dos EUA é no Golfo, onde os depósitos de sal subaquático cobrem 85% da plataforma continental. Cite os desafios técnicos e logísticos mais importantes.

 

Gabrielli - A Petrobras produz hoje em profundidade de água de 2.172 metros, na Bacia de Santos, litoral brasileiro, e em breve estará produzindo a 2.500 metros de profundidade, na parte americana do Golfo do México. O maior desafio é a camada de sal que, sob alta pressão e alta temperatura, comporta-se como um material plástico. Posso afirmar que vários avanços foram alcançados nos últimos anos, permitindo não somente a perfuração de forma estável da camada de sal, mas também a redução de tempo e custo para perfuração dos poços.

 

Por exemplo, o primeiro poço perfurado pela Petrobras no pré-sal demorou cerca de seis meses e custou US$ 240 milhões, enquanto que poços mais recentes perfurados pela companhia demoraram cerca de 60 dias e custaram, em média, US$ 66 milhões. A redução de prazo e custo foi possível com o aprendizado sobre perfuração em camadas de sal de 2.000 metros de espessura, com a melhor especificação de revestimento dos poços e avanços na qualidade do fluido de perfuração, na concepção da geometria do poço e na especificação da melhor broca de perfuração. Essas soluções foram alcançadas com muitas análises feitas no centro de pesquisas da empresa e pelo grupo de engenharia de poços da Petrobras.

 

A Petrobras também está trabalhando para superar outros desafios tecnológicos.  Podemos citar o escoamento do petróleo em águas ultra  profundas; a caracterização e previsibilidade dos reservatórios; a operação de plantas de gás complexas nas unidades de produção; além do gerenciamento do gás carbônico (CO2) no gás associado (de forma a reduzir emissões); e o emprego de equipamentos mais resistentes à corrosão causada pelo contato do CO2 com a água.

 


 

 

 

José Sergio Gabrielli de Azevedo nasceu em Salvador, é graduado em Economia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e professor titular licenciado da mesma universidade. Exerceu o cargo de diretor financeiro e de Relações com Investidores da Petrobras de fevereiro de 2003 a julho de 2005, quando foi nomeado Presidente (CEO) da empresa.

Gabrielli obteve mestrado com dissertação sobre Incentivos Fiscais e Desenvolvimento Regional e, em 1987, obteve o título de PhD em Economia pela Universidade de Boston, com dissertação sobre o Financiamento das Estatais no período de 1975 a 1979. Em 2000 foi, por um ano, pesquisador visitante na London School of Economics and Political Science, em Londres.

Na UFBA, foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação, diretor da Faculdade de Ciências Econômicas e coordenador do Mestrado em Economia. Foi também superintendente da Fundação de Apoio a Pesquisa e Extensão, a Fapex.

Escreveu diversos artigos e livros sobre reestruturação produtiva, mercado de trabalho, macroeconomia e desenvolvimento regional e foi considerado pela Revista Época um dos 100 brasileiros mais influentes do ano de 2009.