CINCO PAÍSES EM BUSCA DA AUTOSSUFICIÊNCIA HIDROCARBORÍFERA

15.07.2011

 

Rodolfo Fuentes (Correspondente no Peru)

 

O que a América Latina pode fazer para evitar que a alta do petróleo cru afete a recuperação econômica global? Pouco, na realidade, porque o excedente exportado da região não é muito alto e entre os grandes produtores, Brasil e Venezuela, este último é membro da OPEP e sua contribuição para o mercado depende muito das políticas que tal organização aplica. 

 

Os demais, Argentina, Colômbia, Equador, Peru e Chile, apresentam realidades diferentes que veremos a seguir.

 

Argentina: Como o tango

 

No fechamento desta edição, a Repsol anunciou ter achado recursos não convencionais equivalentes a uns 150 mmb na província de Neuquén o que, na opinião da presidente Cristina Fernández de Kirchner, é o anúncio mais importante dos últimos 20 anos, pois estes recursos aumentam em 28% as reservas da YPF e em 6% as do país.

 

Trata-se de uma boa notícia porque, como diz o tango, a indústria petroleira argentina desceu ladeira abaixo. Depois de chegar a seu pico máximo histórico em 1998, com 890 mbd, segundo o último Anuário Estatístico de BP, baixou para 819 mbd no início do milênio, continuou baixando até 676 mbd e em 2010 chegou a 607 mbd.

 

De acordo com o Instituto Argentino de Petróleo e Gás, entre 2004 e 2010 a produção de gás diminuiu de 52 para 47 milhões de metros cúbicos extraídos ao ano. “Desde o ano de 1999 até hoje, aumentou em duas vezes e meia a quantidade de poços de extração efetiva, passando de 841 para 2013 atualmente. Esta maior quantidade de poços não conseguiu compensar a queda da produtividade média dos mesmos, que caiu no período de 138 mil m3/dia para 64 mil m3/dia, valores típicos para depósitos maduros”, sinaliza o IAPG.

 

As refinarias argentinas produziram 635 mil barris diários de destilados no ano de 2009.

 

Colômbia: presente amargo como o café

 

A Colômbia deixou de auto abastecer-se faz sete anos e tudo se tornou escuro para a indústria petroleira deste país. Agora produz 685 mbd, muito menos que os 840 mbd do final do século passado, mas um pouco mais do que o meio milhão de barris por dia que extraia na metade da década de noventa. 

  

Frente a isto, as autoridades reagiram com energia. Além de um processo que acabou levando à cotação na bolsa da estatal Ecopetrol, iniciou-se uma série de reformas que transformaram o setor hidrocarborífero colombiano em um dos mais atrativos para os investidores estrangeiros.

 

Há uma base material para tal interesse. Calcula-se que as reservas comprovadas da Colômbia sejam de 1360 milhões de barris e que as de gás estão estimadas em 3,96 milhões de pés cúbicos.

 

Segundo cifras do Ministério de Minas e Energia, em março deste ano a produção de gás foi de 2.917,88 milhões de pés cúbicos diários que em sua maioria são reinjetados para manter a pressão dos reservatórios e ajudar na recuperação melhorada do petróleo cru.  

 

A capacidade de refinamento colombiana alcança 286 mil barris diários, a cargo principalmente do Complexo Industrial de Barrancabermeja e da Refinaria de Cartagena.

 

Para recuperar sua capacidade de auto abastecimento e continuar suas exportações, no ano passado a Colômbia licitou 255 blocos de exploração demarcados sobre mais de 130 mil hectares, a maior oferta realizada na história do país. 

 

Equador: O retorno do nacionalismo petroleiro

 

O Equador é o país que menos produz no âmbito da OPEP, organização a qual foi incorporado em 2007 depois de haver renunciado a mesma no final de 1992. É o quinto maior produtor da América do Sul e um dos maiores exportadores da América Latina. Em 2009, extraiu 486 mbd e consumiu 181 mbd, exportando 305 mbd.

 

Em maio deste ano, a produção equatoriana foi de 498.309 barris diários dos quais 344 mil corresponderam à produção de empresas do Estado ou suas subsidiárias. Somente uma das estatais, a Petroamazonas EP, tem uma produção de 160.000 barris por dia o que representa 30% da produção nacional e opera quatro blocos, denominados 7, 15, 18 e 21.

 

As empresas privadas produzem 141 mbd. Entre elas, destaca-se por seu tamanho e contribuição para a produção a espanhola Repsol YPF com pouco mais de 45 mbd. A italiana AGIP extrai quase 20 mbd e a Andes Petroleum mais de 33 mbd.

 

Há três refinarias no Equador. Trabalhando com 95% de sua capacidade, em março desde ano a refinaria de Esmeraldas produziu 99 mil barris por dia, a La Libertad quase 45 mil barris diários e a de Shushufindi uns 20 mil barris ao dia.

 

No ano passado, a legislação petroleira modificou-se: foi criada a agência nacional de hidrocarburetos, encarregada da negociação de contratos; ficou estabelecido em 25% o Imposto de Renda para as empresas petroleiras e a migração de todos os contratos para apenas um de prestação de serviços. Em virtude do novo modelo, o Estado reconhece uma média de US$ 30 por barril extraído e recupera a propriedade do petróleo cru na boca do poço.

 

Peru: no ritmo da Camisea

 

Com a exportação de gás de Camisea, iniciada em 2004, o Peru recuperou a autonomia em hidrocarburetos e no ano passado converteu-se no primeiro exportador de gás natural liquefeito.Considerando os líquidos do gás natural, sua produção aumentou em 50% nos últimos dez anos, passando de 90 mbd no ano de 2000 a uma média de 160 mbd neste ano.

 

Deste total, quase 80% provem de três empresas: Pluspetrol da Argentina, Petrobrás do Brasil e Savia, uma sociedade entre a Ecopetrol da Colômbia e capitais coreanos.

 

O Peru tem uma das legislações mais atrativas para o investimento estrangeiro e conta com cerca de 90 contratos petroleiros assinados dos quais cerca de 70 estão na etapa exploratória.

 

Em dezembro de 2010, a produção de gás natural do Peru superou um bilhão de pés cúbicos por dia, quase em sua totalidade da reserva de Camisea. Também se produz gás natural na selva central e na costa norte do país. Extraídos os líquidos, o Peru produziu 255,6 bilhões de pés cúbicos de gás natural seco em 2010, a maioria dos quais foi exportado. Em junho de 2010, o consórcio Peru LNG, liderado pela Hunt Oil, começou a exportar gás liquefeito a partir de sua planta em Pampa Melchorita, que é capaz de processar 215 milhões de pés cúbicos por ano.

 

O Peru conta com seis refinarias com capacidade total de 198.950 bd. Quatro delas são estatais, mas a maior é a de La Pampilla, operada pela Repsol YPF.

 

Chile: Sem petróleo nem gás, mas com visão

 

O Chile não é um país de filiação hidrocarborífera e tem um nível de desenvolvimento que o lançou na busca de alternativas. Cinco anos atrás produzia cerca de 4 mbd, mas consumia 224 mbd de petróleo cru e derivados. Sua petroleira estatal, a ENAP, teve que se internacionalizar e chegou ao Egito, Irã, Iêmen, Angola. Além disso, também está presente na Argentina, Colômbia, Brasil e Equador.

 

Em 2010 extraiu cerca de 20 mbd dos quais somente 2.520 bpd brotaram no Chile. O resto foi na Argentina (10.634 bpd), Equador (3.277 bpd) e Egito (3.366 bbp). Suas três refinarias processam 229 mbd e sua filial ENAP, depois de participar na compra de ativos da Shell, vende atualmente combustíveis no Peru e Equador. Com relação ao gás natural, em 2009 produziu 9,3 boe em Magallanes e 2,2 mm boe na Cuenca Austral.

 

No Chile funcionam as duas primeiras plantas regasificadoras do continente, Quintero e Mejillones, passos importantes em sua busca pela autonomia energética.