Obama diálogo estratégico em energia com o Brasil

27.06.2011

Graças ao seu potencial econômico e energético, o Brasil tem grande possibilidade de exercer um papel de protagonista no quadro geopolítico da economia petrolífera em um futuro próximo. A visita do presidente do EUA, Barack Obama, em março, na opinião de especialistas do setor, vislumbra uma nova era.

Tudo começou com a descoberta, em 2007, de uma gigantesca quantidade de reservas de petróleo no pré-sal. A próxima virada pode ter início com o resultado dessa visita.

O cenário é favorável para o país. Assim como já havia adiantado o chanceler Antonio Patriota, os Estados Unidos estão interessados em comprar o petróleo brasileiro a longo prazo.

Barack Obama elogiou a transição democrática do Brasil, apontando como um modelo para o mundo árabe: "O Brasil mostrou que uma ditadura pode virar uma democracia. Mostrou que a reivindicação de mudança pode começar na rua e transformar o país, transformar o mundo," discursou.

No Oriente Médio e Norte da África as mobilizações populares para pôr fim a governos autocráticos estavam aumentando. Os EUA dependem de importação de 50% do petróleo que consomem e muito deste óleo vem do Oriente Médio.

O líder americano fez seu pronunciamento no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, na histórica Cinelândia, que foi palco do movimento das "Diretas Já" contra a ditadura militar brasileira (1964-1985). Para Obama, os participantes desse movimento mostraram como uma revolta popular pode produzir uma democracia próspera.

Todos brasileiros sabem que durante os anos 70 Dilma foi presa durante três anos e torturada, mas ele afirmou, homenageando: “Uma das pessoas que protestaram foi presa e ela sabe o que é viver sem seus direitos mais básicos. Ela, porém, também sabe o que é perseverar. Hoje ela é a sua presidente, Dilma Rousseff". Aplausos.

Um dos temas discutidos durante a visita foi o fortalecimento das relações com outras nações produtoras de petróleo, como alternativa para a crise no Oriente Médio. O preço do barril passou de US$ 100. Segundo Obama, os Estados Unidos estão cientes da necessidade de explorar novas fronteiras de produção de petróleo, reduzir a dependência de importações e diversificar fornecedores.

Durante a visita de dois dias (18/19) Obama deixou claro que os norte-americanos estão de olho no pré-sal. “Como a instabilidade em muitas partes do mundo afeta o preço do petróleo, os EUA estarão felizes de ter o Brasil como fornecedor,” declarou aos empresários em Brasilia.

A exploração da camada pré-sal tem sido citada pela presidente Rousseff como um “passaporte para o futuro” do País. Ela ressaltou que o seu governo terá a responsabilidade de transformar essa riqueza natural em uma “poupança de longo prazo”.

Para Rousseff, o País tem a chance de criar um “projeto inédito de desenvolvimento” associado à preservação ambiental. “Pela primeira vez o Brasil se vê diante de uma oportunidade real de ser uma nação desenvolvida. Uma nação com a marca inerente da cultura e do estilo brasileiro: o amor, a generosidade, a criatividade e a tolerância”.

Óleo cru ou refinado?

Estima-se que o Brasil descobriu reservas potenciais de 50 a 100 B/b no pré-sal. E é óleo leve de boa qualidade. Dois anos atrás o discurso do governo deixava claro que o Brasil dificilmente entraria na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) porque nunca seria um exportador de petróleo e sim de derivados.

Dilma prefere exportar óleo cru para os EUA do que aumentar a poluição aqui, processando e desenvolvendo produtos de valor agregado (gasolina, querosene etc.) para o consumo no Brasil e no exterior. A presidente, que já foi Ministra de Energia e presidente do Conselho de Administração da Petrobras quer desenvolver alternativas com fontes de energias mais limpas.

A Petrobras prevê chegar a 2020 produzindo 4 MM/b de petróleo, o dobro da produção atual. E com os planos de refinar esse óleo para oferecer combustíveis no mercado interno, a sobra de produto deve ser irrisória para padrões americanos.

Para a construção de novas refinarias, em 2008 o plano de investimentos da Petrobras, mais de US$ 50 bilhões, estava baseado na necessidade de exportar combustíveis, notadamente diesel.

Em 2010, no entanto, pela primeira vez o crescimento do mercado interno (20%) fez com que as vendas de derivados no ano passado superassem a alta do PIB em cerca de 2 pontos percentuais. E a Petrobras já justifica as novas refinarias para atender o mercado interno e trazer segurança energética para o País, já que as importações de combustíveis tendem a aumentar se a produção atual não atender ao mercado local.

Pioneira no Golfo

Outro aspecto importante da visita foi a assinatura de acordo para o desenvolvimento tecnológico no setor energia. O presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli enfatizou: “Estamos levando pela primeira vez o sistema de produção de FPSO ao Golfo do México. O órgão regulador americano reconheceu a tecnologia e segurança do projeto”

A FPSO (Floating, Production, Storage and Offloading) vai explorar campos localizados a profundidades de 2,5 mil metros.

O navio-plataforma terá capacidade de produzir 80 M/b/dia de petróleo e 500 M/m³/dia de gás natural. Uma das principais vantagens dessa instalação é a sua mobilidade. Em caso de condições climáticas adversas, como furacões, a embarcação pode ser separada do sistema de poços e navegar para áreas mais seguras.

A Petrobras tem muita experiência em operar FPSOs em águas profundas e ultraprofundas no Brasil, inclusive nos campos do pré-sal. A aprovação do governo americano para o projeto da Petrobras de produção de petróleo e gás nos campos de Cascade e Chinook, na região americana do Golfo, finalmente foi anunciada durante a visita de Obama.

O documento da BOEMRE, a sigla em inglês para a direção do Escritório de Administração, Regulamentação e Supervisão de Energia Oceânica dos Estados Unidos, destacou a qualidade tecnológica do projeto da Petrobras e ressaltou a colaboração entre a indústria e o governo norte-americano para a produção segura de recursos de energia no País.

De acordo com a estatal, o reconhecimento do governo americano consolida a presença da Petrobras no Golfo do México como uma das principais empresas do mundo a dominar a tecnologia para exploração e produção em águas ultra profundas. Ficou claro também que há interesse em participar da extração, e, possivelmente, do desenvolvimento tecnológico.

Pólo tecnológico para o pré-sal

 

A Petrobras desenvolveu tecnologia própria para exploração em águas ultra-profundas e tradicionalmente vem direcionando grandes esforços para a pesquisa e desenvolvimento

(P&D), através de programas como, por exemplo, o PROCAP 2000 e 3000. Agora,

visando garantir a produção da nova fronteira exploratória está investindo no recém criado, Programa Tecnológico para o Pré-Sal, PROSAL.

Em dezembro passado o Cenpes já havia concluído a modelagem integrada em 3D das Bacias de Santos, Espírito Santo e Campos, que será fundamental na exploração das novas descobertas. Além disso, trabalhando em sintonia com uma rede de universidades, a empresa está contribuindo para a formação de um sólido portfólio tecnológico nacional.

As oportunidades de parceria percorrem um amplo leque de atividades industriais porque direta ou indiretamente, o pré-sal também envolve apoio logístico offshore, criando necessidade de coordenar a logística entre o continente e as plataformas; contratar embarcações especializadas para o abastecimento; produção de novos equipamentos submarinos e de superfície, desde tubos flexíveis até plataformas e sistemas de automação; e o emprego e pesquisa de novos materiais, adaptados as condições específicas das novas áreas de exploração.  

O Rio de Janeiro terá a possibilidade de concentrar pólo tecnológico que está se formando com a aproximação entre o negócio petróleo e a academia, em todas as especializações afins. O próprio centro de pesquisas da estatal, o Cenpes, já foi ampliado.

Entre as empresas privadas, a primeira a se instalar foi a Schulumberger que inaugurou no fim do ano passado um laboratório de pesquisas em geoengenharia, próximo ao Campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e também perto do Cenpes.

Essas instalações serão usadas para desenvolver estudos de organização e métodos de trabalho nas áreas de geociências, em conjunto com universidades, a partir de plataformas como o desenvolvimento de aplicativos Ocean e software de simulação de sísmica Petrel. O projeto também inclui três laboratórios para análise de rochas e fluídos.

Os estudos já iniciados incluem: programa de leitura de imagens eletro magnéticas originadas em águas profundas, para melhorar projetos de perfuração; especialização em petrofísica para ampliar o entendimento e otimizar a produção nas rochas carbonáticas do pré-sal brasileiro; estudos de engenharia de reservatórios e desenvolvimento de novos algoritmos para modelagem e simulação de fluidez nos reservatórios carbonáticos e fraturas; um programa de investigação geomecânica usando imagens 4D da movimentação de fluídos para aperfeiçoar a representação digital dos reservatórios no pré-sal; e o desenvolvimento de soluções para completação de poços controlados e monitorados remotamente.

O pólo tecnológico também inspirou a formação de um time para desenvolver soluções aos desafios encontrados na perfuração dos reservatórios carbonáticos em conjunto com clientes. Os especialistas são das seguintes empresas do Grupo Schulumberger: Drilling & Measurements; Smith; M-I SWACO; Geoservices e Terra Tek Geomechanics Laboratory.

Além disso, o BG Group, líder mundial em gás natural, vai instalar um Centro Global de Tecnologia, um investimento de US$ 1,5 bilhão em dez anos. Até 2020 o BG Group destinou para aplicar na exploração conjunta com a Petrobras um total de US$ 30 bilhões, anunciou recentemente o presidente do Conselho de Administração, Robert Wilson.

No último ano outras sete empresas também anunciaram a instalação de centros de pesquisas no Parque Tecnológico da Ilha da Cidade Universitária no Rio de Janeiro: FMC Technologies, Confab/Tenares, Halliburton, Usiminas, Baker Hughes e GE. Estima-se que juntas investirão cerca de R$ 760 milhões nestes centros de pesquisa e podem empregar 1.420 trabalhadores, entre mestres, doutores e pessoal técnico especializado.

O Governo do Estado e a Prefeitura do Rio de Janeiro já estão negociando com o Exército Brasileiro a aquisição da Ilha do Bom Jesus. Com cerca de 200 M/m², a ilha localiza-se no interior da Baía de Guanabara, dentro da Vila Militar do Fundão. Cerca de 50 M/m² deverão ser ocupados pela GE e o restante poderá ser distribuído para as demais empresas interessadas. Chemtech/Siemens, Dow, Braskem, Nalco, Technip, White Martins, EMC2, Vallourec/Mannesmann, e L’Oreal (empresa de cosméticos) também têm projetos para o Rio.

Projetos para Santos

 

Embora a Bacia de Santos já esteja produzindo desde 1993, os volumes eram pequenos. A produção esperada até o fim deste ano é de 130 M/b/dia,volume que poderá aumentar gradativamente, devendo atingir 1 MM/b/dia em 2017. Para termos de comparação, a Bacia de Campos, atualmente produz mais de 80% do total do país, entre 1,6 MM e 1,7MM/b/diários.

 

O desenvolvimento das grandes jazidas se deu a partir de 2009, com Lagosta e Tupi, o campo que recentemente foi rebatizado de Lula, com volumes totais recuperáveis de 6,5 bilhões de barris.

Segundo a Unidade de Operações de Exploração e Produção da Bacia de Santos, há necessidade de construir duas novas bases logísticas - uma em Itaguaí (RJ) e outra na Base Aérea de Santos, que fica no município de Guarujá (SP), às margens do porto de Santos. O presidente americano vê oportunidade de parcerias no desenvolvimento de infra-estruturas e anunciou a chegada de uma missão comercial ao Brasil em maio deste ano.

Atualmente 17 sondas e sete sistemas de produção estão operando na Bacia de Santos e o abastecimento e transporte aéreo de pessoal e peças menores ocorre a partir das cidades de Macaé (RJ), de Itajaí e Navegantes(SC) e dos bairros de Jacarepaguá - Rio de Janeiro (RJ) e Itanhaém - São Paulo (SP).

A Petrobras informa que a base logística ficará na margem esquerda do canal de navegação do porto. A nova sede da empresa ficará do outro lado, na margem direita do Porto de Santos, próxima ao cais. Serãotrês torres de 17 andares para 22 mil funcionários cada uma. A inauguração do primeiro prédio deverá ocorrer no segundo semestre de 2013. Os outros dois edifícios devem ficar prontos entre 2015 e 2018.

O serviço da base logística será terceirizado por meio de uma licitação. A Petrobras estima que a unidade esteja operacional em 2015. Até lá, a estatal estuda antecipar uma área provisória no porto de Santos. A empresa também entrou em entendimentos com a Codesp (Companhia Docas do Estado de São Paulo) para avaliar a possibilidade de utilização de mais alguma área.

 

A primeira etapa de implantação da Bacia de Santos contemplava alguns campos do pós-sal que já estão produzindo, o primeiro piloto do pré-sal (que também é chamado de sistema definitivo), e a contratação do segundo e do terceiro. No atual plano estratégico da Petrobras consta que até 2014 serão 15 testes de longa duração.

 

O primeiro sistema definitivo do pré-sal está em Lula desde 28 de outubro, com capacidade para até 100 M/b/diade petróleo. Hoje, a produção é de 14 M/b/dia porque só existe um poço ligado. Até o fim do ano serão quatro poços conectados, atingindo no total 60 M/b/dia.

 

O segundo sistema é o piloto do campo de Guará, que deve entrar em operação no início de 2013, com capacidade para 120 M/b/dia. E o terceiro sistema dessa primeira fase de projetos é o piloto de Lula Nordeste, também com capacidade para 120 M/b/diae previsto para meados de 2013

 

Atualmente existem dois navios fazendo testes de longa duração (TLD) nessas áreas: o BW Cidade São Vicente (operando em Lula Nordeste) e o Dynamic Producer (em Guará).