Os Órfãos da OGX

10.12.2013

Foi nos últimos dias de outubro, durante a OTC Brasil 2013, que a francesa Perenco anunciou a redução das operações da empresa no Brasil, após uma campanha exploratória considerada decepcionante, onde a empresa precisou arcar com os custos que não foram pagos pela OGX. 

A Perenco perfurou 4 poços no offshore da bacia do Espírito Santo, mas apenas encontrou, em um deles, uma reserva de tight gas, de extração inviável por conta da localização em águas profundas. 

A companhia entrou no offshore brasileiro em 2008, quando adquiriu participações operacionais em cinco concessões, sísmica 3D em várias áreas e passou também a perfurar poços. A pretensão da Perenco era encontrar cenários semelhantes a algumas descobertas da Petrobras como Indra, Pé-de-moleque, Brigadeiro e Quindim. Uma fonte interna afirmou que o desapontamento da empresa com o Brasil se consolidou a partir do momento em que a OGX deixou de cumprir com suas obrigações pela campanha. A mesma fonte afirmou que o calote seria de aproximadamente US$40 milhões.  Valor que precisou ser coberto pela própria Perenco. 

Os problemas financeiros da OGX afetaram também a Diamond Offshore Drilling.

No mesmo período, a companhia anunciou a retirada da sonda semissubmersível Ocean Quest de águas brasileiras, por conta do não recebimento das últimas parcelas dos valores acordados em contrato com a OGX.  Segundo os dados da própria empresa, o valor em aberto seria de US$57 milhões, que foram amortizados no segundo e terceiro trimestres de 2013. 

O diretor-presidente da Diamond Offshore, Larry Dickerson, explicou que a sonda foi enviada à Malásia, para operar na região da Ásia-Pacífico. 

A outra sonda da empresa que trabalhava para a OGX, a semissubmersível Ocean Star, foi transferida para a Queiroz Galvão E&P para perfurar poços no campo de Atlanta, na Bacia de Santos. A transferência conseguiu minimizar em parte as perdas da Diamond.

De acordo com a consultoria Morningstar, Pimco, Blackrock e Lord Abbot são alguns dos maiores detentores de títulos da OGX. Essas 3 companhias, juntamente com Loomis Sayles, Ashmore, Spinaker e GSO, contrataram representantes legais e financeiros para tentar negociar a reestruturação dos débitos da OGX. Até o fechamento desta edição, essas negociações não haviam gerado nenhum resultado.

Em maio de 2012, a GE investiu US$300 milhões no grupo X, de Eike Batista. E apesar do extenso número de produtos de perfuração e serviços que a empresa vendeu à OGX ao longo do tempo, anunciados muitas vezes por meio de releases chamativos, é bem possível que a GE acabe também na longa fila de credores que esperam receber o pagamento de volta.

Já a OSX, braço de construção naval do grupo EBX, possui 373 instituições em sua lista de credores. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo. A maior parte dos credores é formada por bancos, que, juntos, somam uma dívida de 4,5 bilhões de reais.  Segundo a nota, 90% de toda a dívida da empresa está concentrada entre os 10 maiores credores. 

Além dos investidores estrangeiros que detém a maior parte da dívida em títulos,  os credores vão desde o fornecedor de café para os escritórios, com aproximadamente R$ 10 mil a receber, até a estatal Petrobras, com R$ 37 milhões, passando por fornecedores de material de escritório (R$4 mil), locadoras de automóveis (R$ 6 mil) e até mesmo o aluguel do prédio onde se localiza a sede do Grupo EBX, no Rio de Janeiro (R$ 757 mil). A dívida já vencida com a Caixa Econômica Federal chega a R$ 121 mil.

Além disso,  o numero de investidores pessoas físicas, que compraram ações na bolsa de valores e tiveram perdas imensas pode passar de 50 mil. E mesmo com a crise, os papéis continuam a ser negociados na bolsa.  De acordo com dados da BM&Fbovespa, no ano a oscilação do papel atingiu 270%. 

 

 

ASCENÇÃO E QUEDA

Criada em julho de 2007, a OGX, empresa de exploração e produção de petróleo de Eike Batista, sempre alardeou que seus campos, arrematados em leilão, teriam reservas de dar inveja aos árabes. Mesmo assim, nesse tempo todo, nunca chegou a produzir ao menos uma gota de petróleo.  

Durante esses seis anos Eike Batista ficou conhecido tanto pela excentricidade quanto pela generosidade. Levava uma vida nababesca, de gastos bilionários. E passou a patrocinar vários projetos e obras sociais no Rio de Janeiro. Chegou a “doar” R$30 milhões para o um hospital infantil, R$13 milhões para projetos esportivos e R$8 milhões para a despoluição da Lagoa Rodrigo de Freitas.  

Os recursos públicos também foram usados para premiar os executivos da OGX e da OSX, com bônus que, segundo a CVM (Comissão de Valores Mobiliários), somaram aproximadamente R$300 milhões de reais.  A dívida total, acumulada, do grupo X já soma mais de R$ 11 bilhões.    

Justificativas para a derrocada não faltaram. Segundo Batista,  ninguém tinha mais confiança em seu projeto do que ele próprio e tudo o que aconteceu foi causado por questões que fugiram de sua alçada, como a crise internacional ou a imprevisibilidade dos poços de petróleo. Há um ano, vendo sua  credibilidade no mercado se esvair, Eike Batista chegou a propor a compra de US$ 1 bilhão em ações da OGX por ele mesmo, ao valor fixo de R$6,3, em uma operação conhecida como “put”.  Mas o investimento jamais aconteceu e,  um ano depois, a OGX entregou os pontos e entrou com um pedido de recuperação judicial. Foi a derrocada da petroleira, que chegou a ter valor de mercado de US$ 22 bilhões, segundo o banco UBS.

Para continuar com suas atividades, a OGX teria que levantar pelo menos US$ 500 milhões. A grande esperança da companhia era um acordo de US$ 850 milhões com a estatal petrolífera malaia Petronas. Mas a estatal malaia preferiu se afastar rompeu o  contrato que tinha com a OGX, relativo à participação de 40% nas concessões dos blocos BM-C-39 e BM-C-40, localizados na bacia de Campos, incluindo o campo de Tubarão Martelo. 

 

 

A CONCORDATA

Com a quebra da OGX, aproximadamente 52 mil trabalhadores, cujos fundos de pensão investiram na empresa, tiveram perda total dessas aplicações.

Embora tenha seis anos de existência, o fato de a OGX nunca ter chegado a produzir petróleo gerou muitas dúvidas e comentários sobre o direito da empresa à recuperação judicial, solicitada à justiça do Rio de Janeiro em outubro de 2013. 

O pedido foi uma tentativa de gerar receita, num momento em que o grupo X passou a enfrentar sérias dificuldades de caixa.  Esse foi o maior pedido de recuperação judicial da história corporativa da América Latina e o primeiro feito por uma companhia que faz parte do Ibovespa — o principal indicador da bolsa de valores brasileira.

O pedido de recuperação envolveu três empresas: OSX Brasil e Construção Naval, responsáveis pela obra do Superporto do Açu, no litoral norte fluminense, e a OSX Serviços Operacionais, que possui apenas R$ 20,2 milhões de dívida.

Para alguns especialistas do setor, no caso do pedido ser aceito, a recuperação poderia ser encabeçada pelo BNDES. De lá vieram mais de R$10 bilhões em recursos públicos para o grupo. Mas ao que parece, mesmo com autorização judicial, esses recursos dificilmente serão recuperados. O próprio BNDES começou a executar as dívidas do grupo X.  O empréstimo ponte de R$ 548 milhões concedido à OSX, vencido em 15 de novembro foi executado pelo banco estatal, segundo fontes que acompanham o processo.

 

 

 

REPERCUSSÃO INTERNACIONAL

A repercussão da quebra do Grupo X no mercado mundial foi imediata. O jornal britânico Financial Times publicou editorial sobre o tema e afirmou que a concordata da OGX deveria servir de alerta para que o governo brasileiro deixe de interferir tanto no setor de petróleo.  O periódico ressaltou que a OGX não é a única companhia de petróleo no Brasil que passa por questões ligadas ao endividamento elevado em contraste com receitas em baixa e citou a Petrobras como exemplo. As ações da estatal verde-amarela caíram em um terço nos últimos 3 anos e sua dívida é estimada hoje em US$ 185 bilhões. 

Para o Financial Times, esse é um momento em que o Brasil não deveria "se permitir perder seu status de Eldorado do petróleo da América Latina". Na visão dos britânicos, enquanto o México tem realizado uma reviravolta “ambiciosa” em seu setor energético, "a supremacia do Brasil parece estar em risco".

 

 

QUEDA DE BRAÇO COM O REGULADOR

Alguns episódios marcaram também, um comportamento de inobservância às regras existentes para o setor e que geraram consequências para as empresas do grupo. A perfuração e a realização de testes no bloco S-M-314, na bacia de Santos, sem autorização da ANP (Agência Nacional do Petróleo) resultou em uma multa de 200 mil reais à OGX.  O órgão regulador também indeferiu, dias antes, um recurso da OGX que contestava a metodologia adotada para calcular os volumes de condensado não medidos, entre os meses de fevereiro e junho, no Campo de Gavião Real, na Bacia do Parnaiba.

 

OPINIÃO DO ESPECIALISTA

Para Jean-Paul Prates, consultor do mercado de petróleo na América Latina, Eike Batista infelizmente protagonizou o maior embuste da história econômica recente do Brasil. 

“Culpado ele? Sim. Mas mais ainda culpados os reguladores do "mercado de ações" e "analistas financeiros", alguns (poucos) dos quais, mesmo respaldados em suspeitas levantadas por especialistas em petróleo, continuaram a permitir vôo livre aos releases e relatórios enganosos, sem nem mesmo contestá-los”, diz Prates.
Aliás, a maioria dos analistas sequer chegou a desconfiar de tanto sucesso repentino o suficiente para consultar especialistas em petróleo de verdade (técnicos): do contrário, muito estrago poderia ter sido evitado.
Não é Eike quem sai mal disso. É o Brasil. E os empreendedores honestos, que não vendem ilusões, nem se apadrinham com gente ruim.

O pior é que o setor de petróleo brasileiro precisa deste tipo de captação. Vai adentrar uma nova rodada de licitações de blocos, com oferta de áreas prolíficas em gás de folhelho (indicação da ANP) em meio a esta tremenda crise de credibilidade quanto aos gestores empresariais brasileiros - agora tidos como novatos ou, pior, enganadores em matéria de E&P.